Viajar sozinho e seguro: o guia prático
Quem viaja acompanhado tem sempre uma segunda cabeça a pensar no problema. Quem viaja só não tem, e é essa a diferença que importa gerir. Não é medo, é logística: preparar meia dúzia de coisas antes de sair de casa evita quase tudo o que costuma correr mal.
Deixar rasto, sem dar satisfações
Antes de partir, combina com alguém de confiança um mínimo de contacto: uma mensagem por dia, à hora que der. Não precisa de ser um relatório, basta o nome da cidade onde se dorme nessa noite. Partilha a localização em direto com essa pessoa através do telemóvel, uma função que existe em qualquer sistema e que se desliga a qualquer momento. E, sempre que fizeres um trilho ou uma estrada de serra fora dos itinerários óbvios, diz o percurso e a hora prevista de regresso. É pouco trabalho e resolve o único cenário verdadeiramente incómodo, o de ninguém saber onde procurar.
Documentos e dinheiro, nunca no mesmo sítio
A regra é simples: nada de crítico concentrado. Cartão de cidadão ou passaporte num bolso interior, um cartão bancário na carteira e outro no fundo da mochila, alguma nota solta separada do resto. Fotografa os documentos e guarda as imagens num serviço na nuvem a que consigas aceder a partir de outro aparelho. Em Portugal paga-se com cartão em quase todo o lado, mas o interior ainda tem tascas, mercados e casas de aldeia que só aceitam dinheiro, por isso vale a pena andar sempre com trinta ou quarenta euros em notas pequenas.
Chegar de noite a uma cidade que não se conhece
É o momento em que a maior parte dos sustos acontece, e quase sempre por cansaço. Se o comboio ou o autocarro chegam depois das dez da noite, reserva o alojamento com antecedência e escolhe qualquer coisa perto da estação, mesmo que seja mais caro. Chegar a pé com mala e mapa aberto a uma zona desconhecida, à meia-noite, é a receita de que vivem os carteiristas. Táxi ou aplicação de transporte custam alguns euros e apagam o problema. Avisa também a casa a que hora chegas, porque muita residencial de província fecha a receção às nove.
Serra, trilhos e o risco que conta mesmo
O maior perigo real de uma viagem a solo por Portugal não anda na rua, anda no monte. A Peneda, o Marão, a Estrela e a Arrábida têm trilhos onde se perde rede de telemóvel em dez minutos e onde uma queda banal se transforma num problema por causa das horas. Leva água a mais, um carregador portátil, descarrega o mapa para uso sem internet e conta com metade da velocidade que julgas ter. No verão, sai cedo e desiste ao meio-dia; o calor do interior é o que manda gente para o hospital, não os declives. Fora de época, o nevoeiro na serra fecha em minutos e não avisa.
Nos transportes e na rua
Os elétricos de Lisboa, sobretudo o vinte e oito, e as zonas de esplanada do Porto são onde o furto de carteiras é mais frequente. Mochila à frente do corpo quando o carro vai cheio, telemóvel fora da mesa da esplanada, e nada de deixar bagagem no carro à vista, sobretudo em miradouros e parques de trilho, onde o arrombamento é rápido e ninguém está a ver. À noite, os centros das cidades são tranquilos e cheios de gente até tarde, o que por si só é a melhor proteção que há. Se a rua estiver deserta e mal iluminada, dá a volta. É a mesma regra de qualquer cidade do mundo.
Beber, sair e voltar
A noite portuguesa é longa e faz-se muito na rua, o que a torna fácil de viver a solo. Duas cautelas que valem para toda a gente: não perder o copo de vista e ter combinado consigo mesmo a hora e a forma de voltar. Guarda o endereço do alojamento escrito no telemóvel, porque nomes de ruas de bairros antigos não se decoram, e tem uma aplicação de transporte instalada antes de precisares dela. Se a noite mudar de plano, manda uma mensagem a quem está a acompanhar a viagem. Não é controlo, é a versão a solo de dizer aos amigos que já chegaste a casa.
Números que convém ter
O 112 é o número único de emergência, funciona em todo o país e atende em inglês. A linha SNS 24, no 808 24 24 24, resolve dúvidas de saúde sem ir às urgências e diz para onde ir quando é preciso. Para roubos, a queixa faz-se em qualquer esquadra da PSP nas cidades ou posto da GNR fora delas, e é indispensável para o seguro. Guarda estes três contactos no telemóvel antes de partir, com o endereço do consulado do teu país se vieres de fora. É o tipo de coisa que se procura mal quando já se precisa dela.
Perguntas frequentes
Vale a pena fazer seguro de viagem dentro de Portugal?
Para quem vem de fora da União Europeia, sim, sobretudo pela cobertura médica e pelo cancelamento. Quem tem cartão europeu de seguro de doença já está coberto no essencial, mas um seguro com assistência em trilhos e desportos de montanha compensa se a viagem tiver serra.
É seguro apanhar boleia em Portugal?
A boleia funciona em zonas rurais e é uma prática antiga no interior, mas continua a ser o gesto de maior risco de uma viagem a solo. As plataformas de partilha de viagens fazem o mesmo trajeto com identificação de ambas as partes e por poucos euros, e são a alternativa sensata.
Qual é a maior fonte de problemas para quem viaja só?
O cansaço. Quase todos os incidentes acontecem no fim de um dia longo, com bagagem, sem plano de chegada e em zona desconhecida. Reservar bem a primeira noite de cada cidade resolve a maioria dos casos.