Guarda e a serra da Estrela sozinho
A Guarda é a cidade mais alta de Portugal e uma das menos visitadas por quem viaja. Fui em fevereiro, sozinho, com a serra por perto e sem carro nos dois primeiros dias. Foram quatro dias de frio, granito e silêncio, e a viagem que mais me obrigou a estar comigo.
Mil metros acima do resto do país
Chega-se à Guarda de comboio ou de autocarro a partir de Lisboa e do Porto, em cerca de quatro horas. O que se encontra é uma cidade pequena, de casas baixas em granito escuro, com uma catedral fortificada no meio e um vento que corta. A altitude está sempre presente: o ar é mais seco, o sol é mais forte e a temperatura desce dez graus assim que o sol se põe. O centro faz-se a pé em duas horas, o que numa viagem a solo tem uma vantagem prática, porque não há nada a cumprir e sobra tempo para andar sem destino, que é quando a cidade se torna interessante.
Subir à Torre sem carro
A Torre, o ponto mais alto de Portugal continental, fica a hora e meia da Guarda por estrada de montanha. Sem carro, a solução é ir até à Covilhã de comboio e apanhar dali um dos transfers que operam no inverno, ou juntar-se a uma caminhada guiada que sai de Manteigas. Foi o que fiz no segundo dia. Custou vinte e cinco euros, éramos seis pessoas e acabou num café em Manteigas a beber chá com as mãos ainda dormentes. Ganhei uma tarde inteira de conversa sem ter feito esforço nenhum para isso, que é como quase sempre acontece em viagem.
Trilhos, e o que muda quando se anda só
No terceiro dia aluguei carro e fui até ao vale glaciar do Zêzere. Os trilhos da Estrela são bem marcados, mas o tempo muda depressa: saí com sol e apanhei nevoeiro fechado a meio da tarde, com visibilidade de trinta metros e sem rede no telemóvel. Voltei para trás, e foi a decisão certa. Quando se anda sozinho não há margem para insistir, porque não há ninguém para ir buscar ajuda. Levo sempre mapa descarregado, bateria externa e a hora prevista de regresso combinada com alguém. Na serra, o inverno é bonito e é a sério.
Onde dormir, e o que confirmar antes de pagar
Fiquei numa casa de hóspedes no centro, quarto individual com aquecimento a funcionar, coisa que na serra não é detalhe menor. Em época de neve os preços sobem e aparecem anúncios de alojamento que não existem, sobretudo em grupos de redes sociais e fora das plataformas com pagamento protegido. O padrão é sempre o mesmo: fotografias demasiado boas, preço abaixo do mercado, pressa para receber a transferência e nenhuma disponibilidade para falar ao telefone. Vale a pena ter o olho treinado para estes sinais, e este guia sobre como reconhecer um anúncio falso na internet reúne bem os indícios, que são exatamente os mesmos em arrendamento, em alojamento local ou em qualquer serviço anunciado sem verificação.
As noites são longas aqui
Em fevereiro escurece às seis e meia e a Guarda recolhe cedo. Há uns quantos bares na zona da Sé e restaurantes que fecham a cozinha às nove e meia, e depois disso a cidade é do vento. Quem viaja sozinho a trabalho, e a Guarda recebe muita gente assim, conhece bem estas noites que não passam. Alguns preenchem-nas com o portátil no quarto, outros procuram companhia, e essa procura mudou de sítio nos últimos anos: saiu dos classificados sem controlo nenhum e passou para plataformas que confirmam cada perfil antes de o publicar, como as páginas de acompanhantes na Guarda, onde a fotografia corresponde a quem aparece e se evita o desperdício de tempo dos anúncios inventados. É uma cidade pequena e discreta, e isso pesa na forma como estas coisas se fazem por cá.
Comer o que a serra dá
A cozinha da região é de inverno e não pede desculpa. Queijo da Serra da Estrela amanteigado, comido à colher, que se compra nas queijarias do centro e custa entre quinze e vinte euros o quilo. Bucho recheado, feijocas, arroz de carqueja, cabrito assado ao domingo. Ao almoço, o prato do dia numa tasca fica por nove euros e chega para dois. Sentei-me quase sempre ao balcão e foi ali que ouvi as melhores indicações da viagem, incluindo a aldeia de Linhares da Beira, que não estava em plano nenhum e acabou por ser a melhor manhã dos quatro dias.
Quando ir
O inverno dá a serra com neve e a cidade praticamente vazia, mas exige roupa a sério e tolerância ao frio. Maio e junho são a melhor época para trilhos, com dias longos e o vale do Zêzere verde. Agosto é quente na cidade e cheio na serra, sobretudo aos fins de semana. Setembro e outubro são o segredo bem guardado: tempo estável, luz baixa e nenhuma fila em lado nenhum.
Perguntas frequentes
Dá para visitar a serra da Estrela sem carro?
Parcialmente. Chega-se à Guarda e à Covilhã de comboio, e há caminhadas guiadas e transfers que sobem à Torre no inverno. Para os trilhos do vale do Zêzere e as aldeias de montanha, um carro alugado por um ou dois dias resolve.
Vale a pena ir à Guarda no inverno?
Vale, se o frio não for problema. A cidade fica vazia, o alojamento é barato fora dos fins de semana de neve e a serra tem outra dimensão. Em contrapartida, escurece cedo e a vida noturna é reduzida.