Solo em Portugal

Como conhecer gente quando se viaja só

Viajar sozinho não significa passar a viagem sozinho, e quem já o fez sabe que a diferença entre uma coisa e outra está quase toda na escolha dos sítios. Há contextos onde falar com um desconhecido é natural e contextos onde é estranho. O truque é passar mais tempo nos primeiros.

O hostel continua a ser o atalho

Mesmo para quem já passou a idade dos dormitórios, o hostel é o sítio onde as conversas acontecem sem que ninguém tenha de as provocar. Em Portugal a rede é boa e pequena, muitas vezes em casas antigas com cozinha comum e um jantar partilhado uma ou duas vezes por semana. A maior parte tem quartos individuais por pouco mais do que uma cama de dormitório, o que resolve a questão do sono sem perder a sala. Um detalhe que muda tudo: chegar antes das oito da noite. Depois disso, os grupos já se formaram e entrar neles dá muito mais trabalho.

O balcão vale mais do que a mesa

Numa tasca portuguesa, quem se senta ao balcão está disponível para conversa e quem se senta à mesa não está. É uma convenção que ninguém escreveu e que toda a gente cumpre. Ao balcão fala-se com o empregado, com o senhor do lado, sobre futebol ou sobre o tempo, e é assim que se descobre a aldeia que não vem no guia ou o restaurante onde almoçam os taxistas. Funciona sobretudo ao pequeno-almoço e ao almoço, e funciona melhor no interior do que nas zonas turísticas do litoral, onde o balcão passou a ser uma fila para pagar.

Atividades que servem de desculpa

A forma mais fiável de conhecer gente numa viagem é ter uma coisa em comum antes de haver conversa. Uma caminhada guiada, uma aula de surf na Ericeira ou em Peniche, uma prova de vinhos no Douro ou no Alentejo, uma aula de cozinha, um passeio de caiaque. São todas atividades de duas a quatro horas, com um grupo pequeno e um motivo óbvio para falar. Metade das amizades de viagem nasce assim, e nenhuma delas exigiu coragem nenhuma. Nas cidades maiores há ainda grupos de corrida abertos e caminhadas urbanas gratuitas com gorjeta no fim, que costumam acabar num copo.

As festas de agosto são um mundo à parte

Se a viagem apanhar o verão, procura as romarias e as festas de vila. De junho a setembro, quase todas as terras do país têm a sua, com arraial, comida na rua e música até de madrugada. São ocasiões abertas, sem bilhete e sem porta, onde um estrangeiro ou alguém de fora da terra é tratado com uma curiosidade genuína que raramente se encontra numa cidade grande. As de São João no Porto e as Festas de Lisboa em junho são as famosas, mas as pequenas, nas aldeias do interior, são onde de facto se fala com as pessoas.

Falar mal português ajuda

Parece contraintuitivo e não é. Tentar três palavras em português, mesmo mal ditas, muda por completo a forma como se é tratado, sobretudo fora dos circuitos turísticos. Um bom dia, um obrigado e um desculpe abrem portas que o inglês fluente não abre, porque sinalizam esforço e não exigência. A partir daí, quem está do outro lado costuma responder em inglês, ou num português lento e paciente, e a conversa continua. O erro comum é o oposto: presumir que toda a gente fala inglês e começar logo por aí, o que numa vila do interior fecha a conversa antes de ela existir.

O que fazer com os contactos depois

As amizades de viagem têm uma intensidade estranha: em dois dias conta-se a vida a alguém que não se volta a ver. Vale a pena separar as que valem a pena das que foram só do momento, sem culpa nenhuma. Um jantar combinado na cidade seguinte, uma mensagem quando se chega ao destino que a outra pessoa recomendou, um convite genuíno para quando ela passar por onde vives. As que sobrevivem à viagem sobrevivem porque alguém fez esse gesto pequeno. As outras ficam como boa memória e não precisam de mais nada.

E os dias em que não apetece

Nem todos os dias de uma viagem a solo são de socializar, e forçar é a maneira mais rápida de acabar exausto. Há dias de museu sozinho, de livro na esplanada e de jantar cedo no quarto, e esses dias fazem parte do formato. A vantagem de viajar só é exatamente essa: não se deve nada a ninguém. Quem alterna conscientemente entre dias abertos e dias fechados chega ao fim da viagem com mais energia e, curiosamente, com mais gente conhecida do que quem tentou aproveitar tudo.

Perguntas frequentes

Preciso de ficar em hostel para conhecer gente?

Ajuda muito, mas não é obrigatório. Muitos hostels têm quartos individuais e mantêm a área comum, o que dá o melhor dos dois lados. Fora disso, as atividades de grupo e os balcões das tascas cumprem o mesmo papel para quem prefere hotéis.

Fala-se inglês em Portugal fora das cidades?

Nas cidades e no litoral turístico, sim, com facilidade. No interior e entre pessoas mais velhas, muito menos. Umas quantas palavras em português e alguma paciência resolvem quase todas as situações do dia a dia.