Viajar sozinho por Portugal: por onde começar
Portugal é dos países mais simples da Europa para uma primeira viagem a solo. É pequeno, tem transporte público que chega quase a todo o lado e a distância entre a montanha e o mar mede-se em horas, não em dias. Este guia junta o que convém saber antes de partir, sem romantizar a experiência nem esconder as partes chatas.
Porque é que o país funciona bem a solo
A escala é o primeiro trunfo. De Lisboa ao Porto vão pouco mais de duas horas e meia de comboio rápido; do Porto à raia de Trás-os-Montes, uma manhã de estrada. Isso quer dizer que uma viagem de dez dias cabe em três ou quatro bases sem passar metade do tempo em trânsito, e que uma decisão tomada ao pequeno-almoço ainda dá para cumprir no mesmo dia. Junta-se a isso um país onde a criminalidade violenta é rara, onde o alojamento é sobretudo pequeno e familiar, e onde raramente se estranha alguém que chega sem companhia. Quem nunca viajou sozinho encontra aqui um sítio pouco intimidante para experimentar.
Andar sem carro, até onde dá
O comboio serve bem o eixo do litoral, de Braga a Faro, com ligações rápidas entre as cidades grandes e regionais mais lentos para o resto. Para o interior, o autocarro faz o que o comboio deixou de fazer: a Rede Expressos liga praticamente todas as capitais de distrito, os bilhetes compram-se online e os preços são baixos. O problema não é chegar às cidades, é o que vem depois. Chegar à Guarda é fácil; chegar a uma aldeia a vinte quilómetros da Guarda, num domingo, já não é. Quem quer o interior a sério acaba por alugar carro, nem que seja por dois ou três dias no meio da viagem, e usar o transporte público para o resto.
Dormir quando se viaja só
O suplemento de quarto individual é o custo escondido de qualquer viagem a solo, e em Portugal nota-se sobretudo fora da época baixa. Os hostels resolvem parte disso e são melhores do que a média europeia: limpos, pequenos, muitas vezes em casas antigas recuperadas, com cozinha e uma sala onde as conversas acontecem sem esforço. Nas cidades pequenas e nas vilas do interior, a alternativa são as residenciais e as casas de hóspedes, onde um quarto individual custa pouco mais do que uma cama num dormitório de Lisboa. Um conselho que se paga sozinho: reservar as duas primeiras noites e deixar o resto em aberto, porque o itinerário quase sempre muda.
O litoral e o interior são dois países
Vale a pena perceber isto antes de traçar o percurso. O litoral é onde vive a maior parte da população, onde estão os transportes, os preços mais altos e o turismo. O interior é o oposto: aldeias meio vazias, serras, comida barata, silêncio a mais para quem não está à espera dele. Uma viagem só pela costa corre o risco de ser uma sucessão de cidades bonitas e parecidas; uma viagem só pelo interior pesa em logística e em horas de solidão. A mistura resolve as duas coisas. Três dias de cidade, três dias de serra ou de planície, e outra vez cidade para descansar dos silêncios.
Comer sozinho sem constrangimento
É aqui que muita gente hesita, e é aqui que Portugal ajuda mais. As tascas têm balcão, e sentar-se ao balcão a almoçar sozinho é a coisa mais normal do mundo em qualquer vila do país. O prato do dia costuma custar entre oito e doze euros com sopa e bebida, e em muitos sítios pede-se meia dose sem que ninguém levante uma sobrancelha. À noite é diferente: as mesas são de duas ou quatro pessoas e o jantar é um ritual social, por isso quem come cedo, por volta das sete e meia, encontra as salas mais vazias e um ambiente mais confortável. Levar um livro funciona, olhar para o telemóvel a refeição inteira não.
Segurança sem paranoia
Portugal aparece sistematicamente no topo dos índices de paz e isso sente-se na rua, incluindo à noite e incluindo para mulheres a viajar sós. O que existe é crime de oportunidade nas zonas muito turísticas: carteiras em elétricos cheios, mochilas em esplanadas, carros arrombados em miradouros isolados. O comportamento certo é o de sempre, sem exageros. Não deixar nada visível dentro do carro, não levar tudo no mesmo bolso, dizer a alguém para onde se vai quando se faz um trilho sozinho. O maior risco real numa viagem a solo por cá não é ser assaltado, é torcer um tornozelo numa serra sem rede de telemóvel.
O terceiro dia costuma ser o mais difícil
Ninguém avisa disto. Os dois primeiros dias passam a correr, cheios de coisas novas, e depois há uma tarde qualquer, normalmente ao terceiro ou quarto dia, em que a viagem se torna estranhamente pesada. Não há a quem comentar o que se acabou de ver, e ver sozinho um pôr do sol bonito é menos bonito do que se imaginava. Isto passa, e quem já viajou a solo várias vezes conta a mesma coisa. Ajuda ter um dia sem plano nenhum, ficar duas noites no mesmo sítio em vez de uma, e aceitar que a viagem não tem de ser produtiva. Quem atravessa esse dia costuma ganhar o resto da viagem.
Quanto custa, por alto
Uma viagem a solo por Portugal em modo simples fica entre sessenta e noventa euros por dia, contando cama individual, duas refeições fora e deslocações. Com hostel, prato do dia e autocarros, desce para quarenta ou cinquenta. Com hotéis de três estrelas e restaurantes de jantar, sobe facilmente para cento e vinte. O que mais varia é a cama, e é sobretudo o mês: agosto no Algarve pode triplicar preços que em novembro são banais. O interior é sempre mais barato do que o litoral, muitas vezes para metade, e é essa a razão prática, mais do que a paisagem, pela qual tanta gente faz o interior no fim da viagem.
Quando ir
Maio, junho, setembro e outubro são as melhores janelas: dias longos, calor suportável, preços fora de pico e sítios sem filas. Julho e agosto são a época do calor grande no interior, onde a meio da tarde não se anda na rua, e da lotação máxima na costa. O inverno tem outra viagem lá dentro, mais barata e mais nua, com o norte à chuva e o sul com dias de sol a treze graus. Para quem viaja só, a época baixa tem uma vantagem que raramente se refere: com menos gente à volta, as conversas com quem lá vive acontecem muito mais depressa.
Perguntas frequentes
Dá para viajar por Portugal sem carro?
Dá, se a viagem for entre cidades. O comboio cobre bem o litoral e os autocarros ligam todas as capitais de distrito. O que o transporte público não resolve é o dentro de cada região, sobretudo aldeias e trilhos, e para isso convém alugar carro por alguns dias.
É seguro viajar sozinha em Portugal?
É, e figura entre os países mais seguros da Europa para o fazer. O crime frequente é de oportunidade, em zonas turísticas: carteiras, mochilas e carros. Os cuidados normais chegam, e andar a pé à noite nos centros das cidades é comum e tranquilo.
Quantos dias são precisos para conhecer Portugal a solo?
Dez a catorze dias permitem juntar duas cidades grandes, uma zona de serra e uma de planície sem correria. Com uma semana, vale mais escolher metade do país do que tentar vê-lo todo em passagens de uma noite.