Solo em Portugal

O Alentejo profundo em viagem a solo

Fiz cinco dias no Baixo Alentejo em setembro, sozinha e de carro, a dormir em Beja e a sair de lá todos os dias. É a região do país onde a viagem a solo mais se parece com um retiro, e onde é mais fácil não falar com ninguém durante horas sem que isso seja triste.

Aldeia branca do Alentejo no cimo de uma colina, sobre a planície
As casas caiadas destacam-se a quilómetros de distância na planície.

Beja como base, e porquê

Escolhi Beja em vez de Évora por dois motivos: é mais barata e está no meio do que eu queria ver. Mértola, Serpa, Moura e Monsaraz ficam todas a menos de hora e meia, e a cidade tem o suficiente para não ser só um dormitório, com um castelo de torre de menagem alta, um convento que é museu e um centro histórico caiado onde se anda bem à noite. Paguei quarenta euros por noite num quarto individual, no centro, com estacionamento. Em setembro ainda apanhei trinta e quatro graus a meio da tarde.

É o calor que faz o horário

Isto não é um detalhe, é a estrutura do dia inteiro. Entre a uma e as cinco da tarde o Alentejo fecha, as ruas ficam vazias e o sol torna qualquer caminhada num erro. Adaptei-me ao segundo dia: sair às sete e meia da manhã, visitar até à uma, almoçar devagar, dormir uma sesta de verdade e voltar a sair às cinco e meia para a melhor luz do dia. Quem viaja acompanhado costuma resistir a esta reorganização; quem viaja só adota-a sem discussão, porque não tem de a negociar com ninguém. Foi das melhores coisas de ir sozinha.

Mértola, Serpa, Monsaraz

Mértola é a que me ficou. Vila fortificada sobre o Guadiana, com uma igreja que foi mesquita e ainda tem o nicho da direção de Meca na parede, e um museu islâmico que explica mil anos de história em duas salas. Serpa é queijo, muralha e um aqueduto que atravessa a vila, com um relógio que dá as horas duas vezes para quem não ouviu à primeira. Monsaraz fica sobre a albufeira do Alqueva e é a mais turística das três, ainda assim vazia às oito da manhã. Nas três andei sozinha durante horas sem encontrar quase ninguém, e nas três havia um café aberto onde alguém me perguntou de onde vinha.

Um jantar combinado em Serpa

Ao terceiro dia, uma conversa numa esplanada de Serpa transformou-se num convite para jantar no dia seguinte. Aceitei, e passei parte da tarde com aquele nervosismo antigo de quem vai encontrar-se com alguém que mal conhece. Correu bem, e o que fez com que corresse bem foram coisas banais: escolher um sítio público e movimentado, dizer a uma amiga onde ia estar, e não construir expectativas nenhumas em cima de duas horas de conversa. Reencontrei quase tudo isso, escrito melhor do que eu diria, neste texto sobre como correr bem um primeiro encontro, que li já em casa e que resume o essencial sem dramatizar. Não voltámos a ver-nos, e não faz mal nenhum.

A comida é o acontecimento do dia

No Alentejo almoça-se a sério. Sopa de cação, açorda com poejos, migas com entrecosto, ensopado de borrego, e uma travessa que chega para duas pessoas mesmo quando se pede meia dose. O prato do dia anda pelos dez euros com sopa, pão, azeitonas e vinho da casa. Sentei-me quase sempre ao balcão ou numa mesa pequena ao pé da porta, e ninguém achou estranho. O que achavam estranho era eu não conseguir acabar a comida, e isso deu conversa em três restaurantes diferentes.

As noites, e quem passa por Beja

Beja à noite é uma cidade calma. Umas esplanadas na Praça da República, dois ou três bares abertos até tarde e pouco mais. Boa parte de quem lá dorme está de passagem, a trabalho no Alqueva, na agricultura de regadio ou na base aérea, e passa noites de hotel sem plano nenhum. Reparei nisso a jantar, em mesas de uma pessoa só, e percebi que a procura de companhia por ali é discreta e prática. Mudou também de canal nos últimos anos: em vez dos classificados sem controlo, procura-se em plataformas que verificam quem publica, como as páginas de acompanhantes em Beja, onde a fotografia corresponde a quem aparece e não se perde tempo com anúncios falsos. Numa cidade pequena, a discrição vale tanto como o resto.

O silêncio é a parte difícil

Ao quarto dia, o Alentejo cobra o que dá. As distâncias são longas, a paisagem repete-se durante quilómetros e há uma hora de fim de tarde em que a planície fica dourada e não há absolutamente ninguém a quem dizer isso. Não é solidão má, é uma solidão sem interlocutor, que é diferente. Aguenta-se melhor com um caderno, com música escolhida e com a decisão de não conduzir mais de uma hora seguida. E, se apertar, com uma noite a mais na cidade em vez de outra aldeia caiada.

Perguntas frequentes

Precisa-se de carro para visitar o Baixo Alentejo?

Praticamente sim. Beja tem comboio e autocarros a partir de Lisboa, mas as ligações entre vilas são poucas e não servem para visitas de dia. Com carro, quase tudo fica a menos de hora e meia da cidade.

Qual é a melhor época para ir ao Alentejo?

Abril, maio, outubro e novembro. A primavera dá a planície verde e florida, e o outono dá temperaturas suportáveis com preços baixos. Julho e agosto passam com frequência dos quarenta graus e obrigam a organizar o dia à volta da sesta.