Uma semana a solo pelo interior
Fiz sete dias entre Viseu e Miranda do Douro, sozinha, metade de autocarro e metade num carro alugado à pressa. Não é um roteiro perfeito, é o que aconteceu, com os erros que valem mais do que os acertos.
Viseu, dois dias para aterrar
Comecei por Viseu porque é cidade a sério sem ser cansativa, e porque a Rede Expressos leva lá de qualquer parte do país. O centro histórico faz-se numa manhã, entre a Sé e o museu Grão Vasco, e depois há o resto do dia, que é o verdadeiro teste de qualquer viagem a solo. Resolvi-o mal no primeiro dia, a andar de um lado para o outro à procura de coisas para ver, e bem no segundo, sentada duas horas numa esplanada da Praça da República a ler e a ouvir. A cidade tem um ritmo lento que só se percebe quando se para. À noite, jantar às sete e meia numa tasca da Rua Direita, ao balcão, e conversa com o dono sobre a vindima que estava para começar.
Lamego e a descida para o Douro
No terceiro dia apanhei o autocarro para Lamego e percebi ali a primeira lição da semana: os horários do interior são feitos para quem vai trabalhar, não para quem vai passear. Saída às sete da manhã ou às cinco da tarde, e mais nada. Lamego compensa a madrugada, com aquela escadaria de seiscentos degraus até ao santuário e um vale que se abre de repente quando se chega ao cimo. Dormi numa casa de hóspedes por trinta e cinco euros, quarto individual com vista para os telhados, e jantei uma bola de carne comprada na padaria porque não me apetecia estar sentada num restaurante. Isso também é viajar sozinha.
Vila Real, o Marão e a decisão do carro
Foi em Vila Real que desisti dos autocarros. Queria ver aldeias do Marão e não havia forma de o fazer sem carro, por isso aluguei um por três dias, quase noventa euros com seguro. Passei o quarto dia em estradas de curva atrás de curva, parei em Mondim de Basto sem plano, comi num café de aldeia onde não havia ementa e o prato do dia eram rojões. Custou nove euros com sopa, vinho e café. O carro mudou a viagem por completo, e a conclusão que trago é simples: no interior, o transporte público leva-nos às cidades e o carro leva-nos ao que fomos ver.
Bragança e Miranda, o país no fim do país
Os dois últimos dias foram os melhores. Bragança tem uma cidadela medieval inteira habitada, com casas normais e roupa estendida dentro das muralhas, e um castelo onde se entra por três euros e onde estive sozinha durante meia hora. Miranda do Douro fica a hora e meia de estrada vazia, com o rio encaixado num canhão que parece de outro continente. Ouvi mirandês num café, a segunda língua oficial do país, falada por pouca gente e sem qualquer folclore à mistura. Foi o momento em que percebi que tinha atravessado uma fronteira interna sem dar por isso.
O que correu mal
O domingo. Contava com uma ligação de autocarro entre duas vilas e simplesmente não existia, o que me obrigou a alterar duas noites de alojamento com a bateria do telemóvel a treze por cento. Aprendi a confirmar sempre os horários de domingo e de feriado antes de reservar seja o que for, porque muita carreira do interior só circula em dias úteis. O segundo erro foi de expectativas: contei com jantares fora todas as noites e várias cozinhas fecham às nove e meia nas vilas pequenas, algumas nem abrem à segunda. Passei duas noites a jantar pão, queijo e fruta comprados de tarde, e não foi mau, foi só diferente do que tinha imaginado.
As contas ao fim de sete dias
Gastei quatrocentos e trinta euros ao todo, o que dá pouco mais de sessenta por dia com carro, alojamento sempre individual e duas refeições fora. Sem o aluguer teria ficado nos quarenta e cinco. A cama foi o maior peso e, ainda assim, metade do que teria pago pelo mesmo tipo de quarto em Lisboa ou no Porto. Esta diferença entre o litoral e o interior é constante e aplica-se a quase tudo o que se paga em Portugal, de um almoço a um serviço qualquer, e há quem tenha feito esse exercício de comparação com detalhe, como neste levantamento sobre quanto custa uma noite de companhia em Portugal, onde o desvio entre a capital e as cidades pequenas é da mesma ordem de grandeza que eu via nas ementas. O país é um só, mas os preços não.
O que faria de outra maneira
Menos etapas. Sete dias com cinco camas diferentes é uma etapa a mais, e a viagem só ganhou densidade quando fiquei duas noites no mesmo sítio. Da próxima escolho três bases, alugo o carro no primeiro dia em vez do quarto, e deixo o domingo para ficar quieta onde estiver. O interior recompensa quem lá está e castiga quem lá passa.
Perguntas frequentes
Dá para fazer o interior norte só de autocarro?
Dá entre cidades, com a Rede Expressos e as carreiras regionais, mas as aldeias e os miradouros ficam de fora. Para uma semana, o mais eficiente é usar autocarro nas ligações longas e alugar carro dois ou três dias no meio.
Quanto custa uma semana a solo pelo interior?
Entre quarenta e cinco e setenta euros por dia, conforme se alugue ou não carro, com quarto individual e duas refeições fora. É cerca de metade do que custa a mesma semana no litoral em época alta.